Negra Jhô nasceu no Quilombo da Muribeca, em São Francisco do Conde, Bahia. Reconhecida por seu trabalho como trancista, é esteticista, estilista e empreendedora cultural. Fundou do Instituto Brasileiro de Beleza Negra Jhô Penteados Afro no Pelourinho, em Salvador e se tornou uma referência nacional e internacional por seu trabalho de valorização e emancipação da identidade e estética afro e ativismo antirracista. Recebeu em 2017 o Prêmio Maria Felipa, concedido pela Câmara Municipal de Salvador, é Doutora Honoris Causa pela Ordem dos Capelães do Brasil (2022) e Comendadora da Ordem do Mérito do Elo Social (2025).
Biografia Negra Jhô é o nome artístico de Valdemira Telma de Jesus Sacramento. A multiartista nasceu no Quilombo da Muribeca, em São Francisco do Conde, Bahia. Seu pai atuava profissionalmente como petroleiro, e era originário do Quilombo da Fazenda Caíque, e sua mãe do Quilombo da Muríbeca, localizado nas imediações de Madre de Deus, Bahia. É a terceira filha, entre seus sete irmãos.
Seu nome artístico nasce da transformação de uma apelido de infância que acompanhou muitas meninas e mulheres que tinham cabelos curtos, atribuído às mesmas, muitas vezes de forma pejorativa: “João”.“Minha família, vizinho e amigos, quando eu era criança, me chamavam de João, por que eu não tinha cabelo. E meu irmão, achava que em inglês João, era John e eu tinha uma amiga, Nega Lúcia, que no mesmo momento em que ela me chamou de Negra o meu irmão me chamou de John. Aí eu parei no tempo e falei: “Não, eu gostei dessa junção aí”, mas depois eu ficava repetindo o nome e não me encontrava com o termo “John”. Mas logo depois eu coloquei Jhô e logo depois fiz a numerologia, dando tudo certo. E Jhô eu vi que significava luz ou Dança de Iorubá, então eu sou uma negra luz e uma negra dança. E nisso eu me tornei uma Negra Jhô, um nome forte e que eu sei que nesse mundo quando se fala esse nome, todos sabem quem sou eu.” (Negra Jhô)A estamparia passou a fazer parte de sua vida ainda na infância. Negra Jhô sempre teve preferência por vestuário estampado e colorido, mas enfrentou a discriminação estética que, a partir de critérios racistas, buscavam desestimular o uso de colorações, estampas , acessórios e vestuários com referência africana e afro-brasileira. A multiartista passou a tinturar e estampar juta (ou tecido de saco) para confeccionar suas próprias peças coloridas. Negra Jhô teve uma infância difícil, e sofreu com discriminação racial ainda em casa, juntamente com suas sete irmãs, discriminadas por sua madrasta, uma mulher de pele clara. As tranças, que têm um papel central em sua história, e hoje muito importante no empoderamento das mulheres negras, eram recriminadas por sua madrasta. Negra Jhô sofria com a pressão estética dentro e fora de casa e, assim como muitas mulheres negras no século XX, era coagida ao alisamento do cabelo crespo, contra sua própria vontade, pois essa era uma exigência social de adequação estética forçada aos mitos do padrão de beleza europeu, uma das formas de discriminação racial. Quando ganhou autonomia para escolher como usar seu próprio cabelo, Negra Jhô fez das tranças parte da expressão de sua identidade. Destacada profissionalmente como trancista, a multiartista aprendeu a trançar cabelos com sua mãe. Trançando os cabelos de irmãs e vizinhas aperfeiçoou suas habilidades e técnicas. Migrou para Salvador nos anos 80, e se estabeleceu no Pelourinho, Centro Histórico da Cidade de Salvador. A técnica de amarração, adotada pela estilista, inicialmente, na confecção de seus próprios vestuários, com tecidos adquiridos na Baixa do Sapateiro, bairro comercial popular de Salvador, é a origem da habilidade que atualmente lhe confere grande reconhecimento profissional como estilista e turbancista. Negra Jhô é mãe de dois filhos. Tem o Candomblé como sua religião, e é filha de Ogum com Iansã, seus orixás, ocupando o cargo de Ya Dagan em seu Terreiro, o Ilê Axé Odé Lêssy. Ativista antirracista, a multiartista atuou, e ainda atua, em articulação social e parceria com importantes grupos e iniciativas negras em Salvador como: Ilê Aiyê, Olodum, Filhos de Gandhy, Banda Didá e outros.
Carreira Seu trabalho como trancista em Salvador começou em 1993 nas escadarias da Fundação Casa de Jorge Amado, onde com um banco para seus clientes, oferecia seus serviços de trancista, conquistando clientes e inspirando outras mulheres à buscarem empoderamento econômico por meio das tranças. Criadora do Instituto Kimundo de Cultura Afro-brasileira, instituição criada para preservar e valorizar a identidade e autoestima de crianças e adolescentes negras de Salvador. O instituto promove diversas ações como: oficinas, exposições e ações em parceria com outras organizações sociais, escolas, faculdades, comunidades quilombolas e sua sede compartilha o mesmo endereço com o Instituto Brasileiro de Beleza Negra Jhô Penteados Afro (Studio Negra Jhô). Seu Instituto atende todos os públicos, inclusive artistas de diferentes cenas culturais como: Virgínia Rodrigues, Sandra de Sá, Jorge Washington, Toni Garrido, Saulo Fernandes, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Sandra Sá, Lázaro Ramos, Isis Valverde, GIlberto Gil e Spike Lee.
Prêmios e homenagens Em 2017 recebeu o Prêmio Maria Felipa, promovido pela Câmara Municipal de Salvador. A iniciativa reconhece a relevância e dedicação de mulheres negras que se destacam na luta contra o preconceito racial. A premiação anual é realizada no dia 25 de julho, por ocasião do Dia Nacional da Mulher Negra e o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. No mesmo ano foram, também, contempladas com o prêmio: as cantoras Margareth Menezes e Virgínia Rodrigues, a estilista Najara Black, a líder comunitária Rose Meire dos Santos Silva e a pugilista Adriana Araújo. Em 2022 recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Ordem dos Capelães do Brasil, em reconhecimento à sua contribuição na manutenção da tradição ancestral africana na Bahia. Em 2023 venceu o Prêmio Inspiradoras na categoria “Empoderamento Econômico”. A iniciativa de Universa e Instituto Avon, com o intuito de promover maior visibilidade às mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. A iniciativa reconhece o relevante trabalho de Negra Jhô para a formação de mulheres negras e seu empoderamento econômico por meio da profissionalização como trancista, turbancista, esteticista e estilista afro, como multiplicadora de um ofício e agente de preservação de um saber ancestral. Seu trabalho é reconhecido, ainda, como relevante para o fortalecimento da identidade e autoestima das mulheres negras. Em 2025 foi contemplada com a Comendadora da Ordem do Mérito do Elo Social em 2025, por sua destacada contribuição para a preservação e valorização da cultura afro-brasileira.
Referências