Candidatos realizam atos por todo o Brasil reunindo apoiadores; especialistas avaliam impacto na eleição

20 out 2026 - 05h00

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- Por: Marcela Ferreira

Apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, participam de ato em apoio à sua candidatura na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, na manhã deste domingo

Foto: Wilton Junior/ Estadão / Estadão

A pouco menos de uma semana do segundo turno das eleições presidenciais, no próximo dia 25, manifestações de rua e atos políticos se tornaram mais uma ferramenta na disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL). Além de reunir apoiadores, os eventos passam uma imagem de força eleitoral e podem influenciar uma parcela de eleitores que ainda não decidiu o voto.

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Apesar da força desses atos, o impacto deles pode ser limitado, segundo especialistas ouvidos pelo Terra. Eles afirmam que a polarização e as preferências eleitorais reduzem o espaço para mudanças significativas na reta final da campanha. Ainda assim, em uma disputa apertada, uma movimentação pequena já pode fazer diferença no resultado.

“Tudo pode fazer diferença”, afirma Rodrigo Prando, cientista político, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Segundo ele, as manifestações têm um poder simbólico que vai além do número de pessoas presentes porque reforçam o sentimento de pertencimento a um grupo e podem estimular eleitores a se engajar na campanha.

Lucas Gelape, professor de Ciência Política da UFMG, também avalia que os atos podem beneficiar os candidatos, mas destaca dois mecanismos que explicam isso: a demonstração de força, capaz de atrair eleitores que preferem apoiar quem parece estar em vantagem, e a mobilização de militantes para buscar novos votos.

Manifestações influenciam votos?

Um dos principais efeitos dos atos políticos é a demonstração pública de força. Grandes concentrações de apoiadores podem transmitir a impressão de que determinado candidato tem uma base ampla e mobilizada, o que ajuda a construir uma imagem de competitividade.

"Pesquisas mostram como grandes eventos de campanha são uma forma de um político demonstrar força perante o eleitorado, e aí, porque o eleitorado tende a preferir votar em quem está à frente, há um efeito conhecido como efeito manada", explica Gelape.

Comitiva de segurança de Flávio Bolsonaro (PL) deixa a Avenida Paulista após ato com apoiadores

Foto: Marcos Alberto Chicano/Fotoarena/Estadão Conteúdo

A demonstração de força, porém, não significa necessariamente que o candidato esteja ampliando sua intenção de voto. Um ato pode reunir milhares de apoiadores que já estavam convencidos, sem atrair novos eleitores. Por isso, o tamanho de uma manifestação, isoladamente, não permite concluir que um candidato ganhou votos ou que está à frente na disputa.

Além desse efeito simbólico, os atos podem funcionar como instrumentos de mobilização. Ao ver outras pessoas participando, apoiadores podem se sentir mais motivados a conversar com familiares, amigos e colegas de trabalho para tentar convencê-los a votar no mesmo candidato.

Gelape considera que esse mecanismo pode ser especialmente relevante para o campo político que terminou o primeiro turno atrás na disputa. A manifestação ajuda a transmitir a mensagem de que a candidatura continua competitiva e pode estimular a militância a intensificar a busca por votos.
É possível virar votos com manifestações?
Sim, mas a possibilidade de conquistar novos eleitores depende do contexto da eleição e do perfil de quem ainda não decidiu o voto, segundo os especialistas. O cenário atual é de forte consolidação das preferências, o que restringe o potencial de mudança das manifestações.
“Eu acho que nessa eleição a gente está com muito pouco eleitor indeciso”, afirma Gelape. Na avaliação dele, há poucos votos disponíveis para serem conquistados por qualquer um dos dois candidatos, de modo que o efeito dos atos tende a ser marginal.
Presidente Lula fala em revolução tecnológica e formação em inteligência artificial em ato na Avenida Paulista
Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação / Estadão
“Tem um fenômeno que mostra uma cristalização de votos muito grande, grande entre o Lula e o Flávio Bolsonaro, o que significa que independente de acusações, de desgastes, de movimentos a favor, os votos estão muito consolidados”, concorda Prando.
Ainda assim, as manifestações podem alcançar grupos menores que permanecem indecisos ou pouco engajados. Nesse caso, o efeito não necessariamente ocorre pela mudança de opinião sobre um candidato, mas pelo aumento da disposição para participar da eleição. “Pode mexer com o percentual de eleitores que é pequeno, mas que estaria indeciso”, diz Prando.
O cientista político também avalia que os atos podem estimular pessoas desmotivadas a comparecer às urnas. Ele cita eleitores que deixaram de votar por desalento ou falta de identificação com a disputa, e não necessariamente por problemas de saúde ou dificuldade de locomoção.
Polarização
Com a maioria dos eleitores decididos sobre em quem votar, a polarização política pode interferir na consolidação dos votos. “Não é que o eleitor vota porque gosta do Lula, mas porque odeia o Flávio. E o contrário também acontece”, afirma Prando.
O cientista político ressalta que também há eleitores que votam por identificação ideológica e por afinidade com os valores defendidos pelos candidatos. Mas, quando as preferências já estão fortemente estabelecidas, convencer alguém a mudar de lado se torna mais difícil.
Flávio Bolsonaro (PL) em ato com apoiadores na Avenida Paulista, em São Paulo
Foto: Aloisio Maurício/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Por isso, os atos de rua podem ter uma função mais importante para manter apoiadores mobilizados do que para transformar a opinião de adversários. A presença de uma multidão ajuda a reforçar a identidade do grupo, alimentar o engajamento e transmitir confiança em relação à candidatura.
É possível medir o impacto das manifestações?
Para avaliar se houve impacto gerado pelas manifestações sobre a eleição, seria necessário observar diversos indicadores como mudanças nas pesquisas de intenção de voto, alterações nos índices de rejeição e sinais de maior mobilização entre eleitores que estavam indecisos ou desmotivados. Mesmo nesses casos, é difícil atribuir uma eventual mudança exclusivamente à manifestação, já que a campanha envolve outros acontecimentos e estratégias, segundo os especialistas.
Prando destaca justamente essa dificuldade de mensuração: embora os atos possam influenciar o comportamento eleitoral, não é simples calcular quantos votos foram conquistados por causa deles. O efeito depende de quem participa, de quem é alcançado pela mobilização e da capacidade de transformar a demonstração pública de apoio em engajamento efetivo.
Apesar das limitações, os especialistas ressaltam que manifestações não devem ser consideradas irrelevantes. Em uma disputa com poucos eleitores ainda disponíveis para mudar de preferência, pequenas variações podem ter peso no resultado final. “São poucos eleitores a serem disputados, mas numa eleição tão apertada qualquer voto a mais ou a menos conta”, diz Gelape.
Fonte: Portal Terra
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