O fator g, ou fator geral, da inteligência é um constructo psicométrico que resume as correlações observadas entre as pontuações de um indivíduo em diversas medidas de habilidades cognitivas. Descrito inicialmente em humanos, um fator g foi posteriormente identificado em várias espécies não humanas. Modelos não humanos de g têm sido usados em pesquisas genéticas e neurológicas sobre inteligência, com o objetivo de ajudar a compreender os mecanismos subjacentes à variação em g.
Métodos A maioria das medidas de g em humanos, incluindo a maior parte dos testes de QI, depende fortemente da linguagem e da capacidade verbal, razão pela qual não pode ser aplicada diretamente a animais não humanos. Diversas medidas alternativas foram desenvolvidas para estudar a inteligência em animais, com base na observação de animais em situações naturais ou em tarefas comportamentais realizadas em ambientes experimentais. Essas tarefas se concentram em aspectos como inovação e resolução de problemas, resposta à novidade, reversão de hábito e inibição, além de aprendizagem social e cultura. Uma avaliação abrangente frequentemente inclui uma bateria de testes envolvendo vários tipos de comportamento.
Inovação e resolução de problemas Tarefas de inovação e resolução de problemas são as medidas experimentais mais amplamente usadas da inteligência não humana. Uma mesma avaliação costuma empregar várias tarefas, que podem envolver memória, raciocínio espacial, discriminação visual e auditiva e manipulação de objetos. A inovação tem sido frequentemente observada em animais, em geral envolvendo soluções novas para problemas cotidianos ou o uso de ferramentas para atingir um objetivo. Entre os exemplos estão o uso de gravetos para capturar cupins em chimpanzés e a quebra de nozes por macacos-prego robustos. Essas observações fornecem medidas ecologicamente válidas sem a necessidade de experimentação.
Resposta à novidade A resposta à novidade é frequentemente usada em medidas de inteligência em bebês humanos, pois a quantidade de interesse por objetos novos e o tempo gasto na exploração de um ambiente novo se correlacionam com a inteligência em fases posteriores da vida. Acredita-se que respostas à novidade em animais não humanos apresentem correlações semelhantes, embora muitas vezes seja difícil quantificar essa medida de forma adequada.
Reversão de hábito e inibição A reversão de hábito e a inibição são comumente usadas para testar a inteligência de primatas. Essas tarefas exigem que o animal suprima uma resposta aprendida ou uma ação instintiva para receber uma recompensa. Por exemplo, no problema do desvio, uma recompensa alimentar situada atrás de um obstáculo deve ser obtida por meio de uma rota indireta. Para isso, o indivíduo deve inibir sua tendência de se mover diretamente em direção ao objetivo.
Aprendizagem social Vários testes de inteligência para animais incluem a aprendizagem social. Quanto mais um indivíduo participa da aprendizagem social e dela se beneficia, maior tende a ser o nível de inteligência que lhe é atribuído. Esses dados estão mais amplamente disponíveis para primatas em situações sociais, frequentemente em populações selvagens, e não em contextos experimentais. Tais observações são mais ecologicamente válidas do que algumas outras medidas. Um dos fundamentos para sua inclusão em estudos de QI está relacionado à teoria da inteligência cultural.
g em mamíferos não humanos Grande parte da pesquisa sobre fatores g não humanos tem se concentrado em mamíferos. Por serem eles próprios mamíferos, os humanos têm muito em comum com outros mamíferos, compartilhando semelhanças em aspectos como fisiologia e neuroquímica. A aprendizagem social e a cultura podem ter desempenhado papel importante na evolução da inteligência em humanos — inclusive em sua estrutura fatorial — e, por essa razão, é plausível que outros animais também apresentem modelos unifatoriais semelhantes de inteligência.
Primatas Devido à sua proximidade taxonômica em relação aos humanos, os primatas — especialmente os grandes símios — têm sido o foco de grande parte da pesquisa sobre a prevalência de um fator g em animais não humanos. Uma meta-análise de 4.000 artigos acadêmicos sobre comportamento de primatas, buscando ocorrências de inovação, aprendizagem social, uso de ferramentas, e forrageamento extrativo, foi realizada para investigar os componentes desses comportamentos em 62 espécies de primatas. Uma análise de componentes principais dessas medidas cognitivas — bem como de três variáveis socioecológicas: amplitude da dieta, porcentagem de frutas na dieta e tamanho do grupo — revelou um único fator que explicava 47% da variância, no qual as medidas cognitivas e, em menor grau, a amplitude da dieta apresentaram saturação. Isso sugere que primatas não humanos, considerados em conjunto, possuem um fator g semelhante ao observado em humanos.
Roedores Camundongos e ratos têm sido usados como organismos-modelo em pesquisas há centenas de anos e são amplamente empregados na psicologia experimental há décadas. Ambos foram propostos como modelos facilmente acessíveis para o estudo de g. As cargas fatoriais do fator g em ratos Long-Evans demonstraram variar de 0,43 até 0,70 em tarefas de habilidade cognitiva. Em camundongos, cerca de 55–60% da variância individual em testes de habilidade cognitiva pode ser explicada por g.
Aplicações
Pesquisa genética Modelos não humanos de inteligência podem ser usados em pesquisas sobre diferenças individuais, especialmente em desenhos de estudo que seriam difíceis ou antiéticos de realizar com seres humanos. Entre os exemplos estão testes de fármacos experimentais e estudos multigeracionais, que levariam muito tempo em humanos. Um aspecto da inteligência particularmente adequado a um modelo não humano é o estudo experimental dos componentes genéticos de g. Camundongos são atualmente considerados um modelo potencial devido à sua ampla disponibilidade, ao conhecimento detalhado de seu genoma e à facilidade com que linhagens podem ser selecionadas para exibir diferenças individuais em habilidade cognitiva.
Neurociência Modelos não humanos também podem ser usados em neurociência em estudos neuroanatômicos que investigam a inteligência e a influência de g em nível neurológico. Ratos foram usados em manipulações experimentais da inteligência por meio de substâncias químicas administradas durante o desenvolvimento pré-natal. Esses efeitos são parcialmente revertidos pela estimulação do desenvolvimento neurológico e sugerem que o número de neurônios e sinapses tem efeito sobre g.
Críticas Um estudo de 2012 que identificou chimpanzés individuais com desempenho consistentemente elevado em tarefas cognitivas encontrou agrupamentos de habilidades, em vez de um fator geral de inteligência. Esse estudo usou dados baseados em indivíduos, e os autores afirmam que seus resultados não são diretamente comparáveis a estudos anteriores que usaram dados de grupo e encontraram evidências de g. Os autores propõem que pesquisas futuras testem múltiplos indivíduos de várias espécies em diversas tarefas, a fim de investigar essa discrepância. Uma revisão e meta-análise de 2020 sobre g em animais não humanos constatou que a correlação média entre tarefas cognitivas era de 0,18, o que sugere apoio fraco à existência de uma inteligência geral. O estudo também destacou limitações dos procedimentos analítico-fatoriais usados para extrair um único fator "geral" de inteligência e verificou que estudos anteriores frequentemente não testavam pressupostos críticos de seus métodos. Os autores sugerem que pesquisas futuras se concentrem nos padrões de (co)variância entre habilidades cognitivas.
Ver também Fator g Inteligência Cognição animal Cognição em primatas
Referências
Referências Predefinição:Cognição animal Predefinição:Psicologia evolutiva