Morte de Rick, da dupla com Renner, marca perda considerável no gênero e suas raízes

23 set 2026 - 04h58

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- Por: Maria Luiza Valeriano

“Quando eu soube desse fato pelo rádio anunciado / Que um tal preto fugido morreu por haver roubado / As façanhas que ele fez me deixou muito amolado / Por lembrar que os pretos sempre são os mais visados / Mas diante da verdade eu vi que estava enganado.”

Os versos de Preto Inocente, de Tião Carreiro & Pardinho, lançada em 1963, expõem o racismo que atravessava a sociedade brasileira e que também fazia parte da realidade do campo, berço da música sertaneja. Se a população negra foi força motriz da produção rural e ajudou a construir a identidade musical do gênero, onde estão os negros no sertanejo de hoje?

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Com a morte de Rick, da dupla com Renner, aos 59 anos, o gênero perde um de seus raros representantes negros de grande sucesso na atualidade. O desaparecimento dessa presença não é recente: ao longo das décadas, a música sertaneja passou por um processo de embranquecimento que apagou parte de suas próprias raízes. Se hoje o sertanejo domina rádios e plataformas de streaming, seus primeiros grandes nomes incluem músicos negros que ajudaram a construir a identidade do gênero. O que aconteceu ao longo desse caminho é uma das questões discutidas pelo sociólogo Rogério da Palma, que estuda as relações raciais na música sertaneja.

Rick e Renner em show em São Paulo

Foto: @rickerenner/Instagram

As raízes negras da música sertaneja

Músicos sertanejos negros que iniciaram carreira entre os anos 1950-1970

Foto: Reprodução/Rogério da Palma

A música sertaneja, enquanto gênero musical moderno, começou a se consolidar na década de 1920, quando Cornélio Pires gravou o que é considerado o primeiro disco do estilo. Nas décadas seguintes, o rádio ajudou a popularizar duplas que se tornaram referências da música brasileira.

Entre elas estavam Tião Carreiro & Pardinho, João Pacífico e Cascatinha & Inhana, artistas negros que fizeram parte da construção do gênero. Naquele período, os cantores eram conhecidos principalmente pela voz, já que a difusão musicial acontecia sobretudo pelo rádio.

A contribuição negra, no entanto, não se limitava à presença de artistas. Segundo Rogério da Palma, a música sertaneja também incorporou sonoridades de origem negra e indígena, como catura, congada, batuques, cururu e calango de roda.

Por exemplo, Tião Carreiro & Pardinho construíram um repertório que abordava o cotidiano da população negra rural e as relações raciais no campo. Canções como Preto de Alma Branca, Preto Inocente e O Preto e o Granfino questionavam estereótipos racistas que associavam pessoas negras à pobreza, à violência e à criminalidade.

"Se preto de alma branca pra você

É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade"
Em outras músicas, a dupla também retratava a realidade dos trabalhadores negros após a escravidão, marcada pela exploração e pela ausência de direitos.
A 'modernização' do sertanejo
Principais cantores sertanejos após os anos 2000
Foto: Reprodução/Rogério da Palma
A partir da década de 1970, a música sertaneja passou por um processo de modernização, impulsionado pelo crescimento da indústria cultural e pela incorporação de novas sonoridades e estéticas.
Nos anos 1980, Chitãozinho & Xororó estiveram entre os responsáveis por transformar o gênero, com novos instrumentos, como guitarra e baixo, e grandes espetáculos. Na década seguinte, o sertanejo romântico consolidou sua presença nacional, com duplas como Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano e Chrystian & Ralf.
"Tal sucesso ocorreu de forma concomitante, todavia, ao quase desaparecimento da temática racial nas canções sertanejas", destaca o sociólogo. Uma das exceções foi Olhos de Luar, de Chrystian & Ralf, lançada em 1992. A música conta a história de um trabalhador negro que enfrenta o preconceito de um fazendeiro por se relacionar com sua filha. "Talvez essa seja a última música sertaneja a retratar um sertão racializado".
A partir dos anos 1990, porém, a presença de artistas negros entre os grandes nomes do sertanejo se tornou cada vez mais rara. Entre os representantes de destaque, estavam João Paulo, parceiro de Daniel, e Rick, da dupla com Renner.
O racismo por trás dos sucessos
Em entrevista ao canal de Piunti no YouTube, Rick relatou episódios de racismo vividos durante a carreira. Em uma ocasião, uma fã pediu uma foto com Renner, mas recusou a presença de Rick ao descobrir que ele também participaria do registro. Segundo o relato, ela afirmou que não gostava de negros. Renner se recusou a tirar a foto.
João Paulo também enfrentou pressões racistas durante a carreira ao lado de Daniel. O cantor morreu em 1997, aos 37 anos, em um acidente de carro na Rodovia dos Bandeirantes, em São Paulo. Meses depois, Daniel contou à Folha que S. Paulo que havia sido aconselhado a procurar um parceiro "mais bonito" para substituí-lo. O cantor afirmou que não deu ouvidos às sugestões e classificou a situação como "puro racismo".
A indústria musical
Para Rogério da Palma, a modernização do gênero também alterou a forma como o sertanejo passou a ser representado visualmente. Com a expansão dos videoclipes, DVDs, programas de televisão e, mais recentemente, das redes sociais, a aparência dos artistas ganhou importância na indústria musical.
"Desde as décadas de 1980 e 1990, a modernização da música sertaneja se apoiou na branquitude para se valorizar esteticamente no mercado musical", disse Rogério.
A aproximação com o agronegócio também contribuiu para transformar a representação do campo. Em vez das histórias de peões, boiadeiros e trabalhadores rurais que marcaram o sertanejo tradicional, a estética contemporânea passou a valorizar uma imagem de prosperidade ligada aos grandes produtores rurais.
"O fato é que o sertão repleto de adversidades sociais e naturais, conforme consta na obra de Tião Carreiro, não está presente na estética da música sertaneja contemporânea; as epopeias e dramas retratados não são mais os de peões, boiadeiros, carroceiros e demais trabalhadores rurais, mas prevalece o discurso vitorioso de um setor econômico".
O apagamento das referências raciais nas letras e entre os artistas não significa que o sertanejo tenha se tornado livre de questões raciais, segundo o especialista. Para o pesquisador, a própria predominância de profissionais brancos demonstra que as relações continuam presentes no gênero e naqueles que a produzem.
Fonte: Portal Terra
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