Intervencionismo americano ao estilo Trump já chegou ao país, apontam especialistas

23 set 2026 - 06h51

(atualizado às 08h50)

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Resumo

Especialistas e a Abin alertam para a pressão dos EUA sobre as eleições brasileiras, sob a cartilha intervencionista de Donald Trump apelidada de "doutrina Donroe". A estratégia visa fortalecer aliados da ultradireita, como Flávio Bolsonaro, contra o governo Lula. Washington adota medidas coercitivas, como sanções e tarifas, além da ameaça de contestar a lisura das urnas eletrônicas na reta final do pleito, repetindo táticas que geram tensão diplomática e colocam a soberania nacional em risco.

Parte da base bolsonarista chega a pedir intervenções de Trump no Brasil, a despeito de riscos à democracia apontados por especialistas

Foto: DW / Deutsche Welle

Ao estilo de um trailer de filme épico de ação, o embaixador dos Estados Unidos no Panamá, Kevin Marino Cabrera, narra uma história enobrecida sobre como o seu país, ao longo de duzentos anos, deu as cartas da ordem política que regeria o "Novo Mundo", impedindo a recolonização europeia das Américas e garantindo para si a hegemonia regional.

Sentado numa cadeira de madeira requintada e de frente para a câmera, ele apresenta um vídeo lançado, em agosto, pelo Departamento de Estado americano sobre a Doutrina Monroe, de 1823. "Na era moderna", afirma, "a doutrina encontrou seu mais recente defensor no presidente [Donald] Trump."

Sob a égide monroeísta, a Casa Branca vem impulsionando a ultradireita rumo às urnas e costurando alianças com seus governos ao redor do continente. Mas também no Brasil, onde o Planalto reagiu com desconforto à produção audiovisual de cinco minutos, o intervencionismo à moda Donroe já deixou de ser especulação para virar realidade, apontam analistas ouvidos pela DW. Observadores leem a paulatina distensão das relações entre EUA e Brasil dentro do contexto das eleições presidenciais de outubro.

Ao discursar diante da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas na terça-feira (22/09), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acenou de novo ao tema, sem citar Trump nominalmente. "Num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas" na América Latina e no Caribe, disse, "o Brasil não cabe no quintal de ninguém", antes de criticar "a ingerência externa em processos eleitorais" e a "divisão do mundo em zonas de influência."

Se vencer o senador Flávio Bolsonaro, os EUA terão em Brasília mais um parceiro ideológico na região, depois de terem apoiado as vitórias de aliados em Colômbia, Honduras e Argentina. Uma das hipóteses mais ventiladas é que, caso contrário, os EUA poderão contestar os resultados das urnas brasileiras.

Pressão até a última hora
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) já antecipou risco crítico de interferência eleitoral pelos EUA em relatório enviado ao governo e à Justiça Eleitoral, segundo a Folha de São Paulo.
"Trump já se posiciona de forma conflitiva em relação ao governo Lula, enquanto atores do seu governo, e ele próprio, aparecem ao lado da família Bolsonaro," afirma Pedro Telles, professor da escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). "Isso tende a se tornar mais agudo conforme o segundo turno se aproxima."
Também o Instituto Vladimir Herzog, organização que atua em favor da democracia e dos direitos humanos, enviou cartas de alerta a autoridades em Brasília e ao secretário-geral da ONU, António Guterres.
A gestão republicana dos EUA apertou desde o ano passado a pressão sobre o Brasil: impôs tarifas comerciais; rotulou facções de "terroristas" e acusou o país de falhar no seu combate; aplicou sanções contra cidadãos supostamente vinculados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), além de autoridades e seus familiares; e desviou do rito diplomático para indicar um embaixador em Brasília.
A doze meses das eleições brasileiras, a Casa Branca usou as negociações do tarifaço para pedir que o Planalto garantisse a participação de "dissidentes políticos". A demanda, entretanto, foi descartada e mantida em sigilo até a semana passada, quando foi revelada pelo Estado de São Paulo.
Agora, "se os EUA escolherem intervir, poderão fazê-lo de forma clara, para maximizar as chances de Flávio," afirma Dov H. Levin, professor de Relações Internacionais da Universidade de Hong Kong. "Mas só saberemos com certeza a poucos dias das eleições. No segundo mandato de Trump, várias intervenções têm acontecido de última hora."
Estratégia já ensaiada
Uma nova rodada de sanções estaria, às vésperas do primeiro turno, sendo avaliada em Washington contra Alexandre de Moraes, postulante a desafeto número um do bolsonarismo (especialmente no contexto das eleições de 2022), e outros integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). No ano passado, os EUA acusaram o ministro de empreender uma "caça às bruxas" contra Bolsonaro.
O questionamento da integridade eleitoral já é estratégia ensaiada tanto pelo bolsonarismo, que vive em clima de campanha permanente contra as urnas eletrônicas no Brasil, quanto pelo trumpismo.
Em julho deste ano, o americano voltou a afirmar que foi fraudulenta a sua derrota para o democrata Joe Biden em 2020 (confirmada por dezenas de decisões judiciais, auditorias estaduais e recontagens). Os EUA realizarão eleições de meio de mandato em novembro, quando os republicanos deverão perder terreno político.
Já o clã Bolsonaro tem o hábito de recorrer a diplomatas estrangeiros para denunciar, sem fundamentação, o sistema de votação brasileiro, numa aparente tentativa de internacionalizar a própria pauta. A conduta levou, inclusive, o ex-presidente Jair Bolsonaro a ser condenado pela Justiça e ficar inelegível.
Jennie Lincoln, diretora da missão de observação a ser enviada pelo Carter Center ao Brasil, aponta que conversão das contestações de eleições em estratégia política tem colocado a democracia em risco ao redor da América Latina. A organização americana é uma das que terá especialistas para avaliar a transparência do pleito, assim como a União Europeia (UE) e a Organização dos Estados Americanos (OEA).
"Se alguém quiser desafiar o sistema eleitoral, precisa ter evidências que possam ser testadas, não apenas politicamente, mas também tecnologicamente," afirma. O ex-presidente de esquerda Gustavo Petro também questionou a própria derrota em agosto na Colômbia.
O limite das bravatas
Mesmo um eventual desafio ao resultado das urnas pelos EUA, entretanto, não implica em consequências previsíveis no Brasil. Por ora, as investidas de Trump falharam em evitar a prisão de Bolsonaro, e Lula converteu a pressão americana em tema próprio de campanha, destaca o cientista político Oliver Stuenkel, da Universidade de Harvard e do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, nos EUA.
Soma-se que, a despeito das ambiciosas intenções hegemônicas dos EUA, a doutrina Donroe pretere a construção de influência geopolítica de longo prazo, apostando em colocar Trump sob os holofotes para fazer pressão em temas imediatos. "O padrão não são operações secretas, mas intervenções abertas, com ameaças nas redes sociais," acrescenta Stuenkel, prevendo que o republicano poderá repetir a estratégia bem-sucedida em outros países latinos para o Brasil.
As bravatas presidenciais se provam, no mínimo, eficientes na ignição das bases da ultradireita. Nas redes sociais, parte da tropa de influenciadores bolsonaristas e seus seguidores acompanha cada movimento de pressão e chega a torcer por uma ofensiva de Trump contra as instituições brasileiras.
Especialistas apontam, em contrapartida, para perigos à soberania nacional e à saúde da democracia brasileira. "Cada país e seu povo devem ter plena autonomia e liberdade para decidir o seu destino," afirma Telles. "E um país nunca busca interferir na eleição de outro sem, por trás disso, querer defender interesses próprios."
Um levantamento de Levin, que estuda o histórico de intervenções eleitorais pelos EUA desde o século 20, indica que o país atuou para influenciar 128 eleições ao redor do mundo entre 1946 e 2014. Do total, 39 ocorreram na América Latina.
Segundo o pesquisador, governos têm probabilidade significativamente maior de cooperar com os EUA caso tenham sido propulsionados ao poder pela Casa Branca. Por exemplo, alinhando votos a nível internacional ou assinando acordos favoráveis aos interesses americanos.
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