Matheus Leitão

Motta chegou ao comando da Câmara como ponte entre os polos. Ao escolher um lado, abriu espaço para o PL reivindicar a cadeira em 2027

Matheus Leitão
05/10/2026 11:23, atualizado 05/10/2026 11:45
KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo
Hugo Motta chegou à presidência da Câmara, em fevereiro de 2025, como a ponte entre os dois polos. PT e PL, adversários em quase tudo, votaram juntos nele, e o partido de Bolsonaro, então a maior bancada da Casa, ainda lhe entregou uma lista de pautas com a anistia aos condenados do 8 de Janeiro no topo. Vinte meses depois, a ponte escolheu uma das margens.
O primeiro ano foi de atrito com o Planalto. O governo chegou a fazer campanha pública contra o Congresso, com Hugo como alvo central, e o PL enxergava nele um aliado. Em 2026, o movimento se inverteu. Hugo virou parceiro do governo, destravou a PEC da Segurança Pública e a medida provisória do vale gás e, em maio, deixou a PEC do fim da escala 6×1 atravessar a Câmara em ritmo acelerado. Aliados admitiam que a aproximação tinha endereço certo na Paraíba, onde o deputado queria Lula ao lado do pai, Nabor Wanderley, na disputa pelo Senado.
O gesto voltou pela metade. Em junho, Lula gravou vídeo de apoio a Veneziano Vital do Rêgo, adversário de Nabor. Hugo engoliu e seguiu em frente. Em agosto, declarou voto em Lula, mesmo com o Republicanos oficialmente neutro, e o presidente do partido, Marcos Pereira, ao lado de Flávio. Recebeu em troca a promessa de apoio do Planalto à sua recondução e passou a articular a pauta do governo na Câmara. No domingo, Nabor ficou fora do Senado.
O saldo deixa Hugo como o mais frágil do grupo que comanda a política paraibana. João Azevêdo, que governou o estado com alta aprovação e puxou a chapa, conquistou uma vaga no Senado. Aguinaldo Ribeiro renovou o mandato, levou o sobrinho ao governo do estado, segue na liderança da maioria no Congresso e tem a irmã, Daniella Ribeiro, na primeira secretaria do Senado até janeiro. Hugo renovou a cadeira de deputado, viu o pai derrotado e agora arrisca perder justamente o posto que dava ao grupo seu maior peso em Brasília.
A Câmara eleita torna esse risco concreto. O PL sai da urna com 121 deputados, a maior bancada desde 1988, e forma com União Progressista e Republicanos um bloco de 248 cadeiras, a nove da maioria absoluta. A bancada que ajudou a eleger Hugo em 2025 tem agora tamanho para escolher o sucessor, e o nome já circula. Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, aparece entre os cotados. Em dezembro ele projetava a disputa para 2029, e o resultado de domingo pode antecipar o calendário.
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A sobrevivência de Hugo passa, assim, por Lula, que larga atrás e com chances pequenas de virar. Com o petista reeleito, a base do governo e parte do Centrão abrem caminho para mais dois anos no comando. Com Flávio no Planalto, o PL tende a cobrar a fatura de agosto, e Sóstenes vira o candidato natural.
Em 2025, Hugo foi o nome do PT e do PL. Em 2027, terá de ser o nome de um lado só.

